Um dia inteiro na escola, excesso de trabalhos de casa, atividades extracurriculares, pressão para os resultados e competitividade.

As crianças  estão, cada vez mais, expostas ao stress e à agitação. São, em muitos casos, vítimas do ritmo acelerado que os adultos lhes impõem. Tudo isso acompanhado pelo excesso de estímulos e informações que chegam por diversos meios, tais como os tablets, computadores, TV ou telemóveis. Com isso, as crianças dedicam pouco tempo a investir no seu desenvolvimento, habilidades sociais e emocionais – justamente aquelas que a vão diferenciar num futuro cada vez mais competitivo.

Crianças com falta de concentração

Sabe-se que as crianças têm mais dificuldade de concentração que os adultos, isto porque os seus cérebros ainda não se encontram totalmente desenvolvidos. Porém, algumas dessas dificuldades de concentração registadas em criança tendem a ser ultrapassadas com a idade.

É comum vermos crianças agitadas, desinteressadas e desmotivadas. Estes sintomas podem ser reflexo da falta de atenção, sobretudo em ambiente escolar. Quando o assunto é desinteressante, tal como acontece em algumas aulas, os níveis de atenção tendem a agravar-se. A par disso, a exigência dos pais para com os filhos em relação aos estudos tem como consequência a diminuição dos momentos de brincadeira, o que, por sua vez, também provoca essa desmotivação.

Como saber se uma criança tem problemas de concentração?

Para efetuar esta avaliação é preciso estar atento aos sintomas. Pode-se dizer que uma criança tem problemas de concentração quando:

» Tem dificuldades de aprendizagem na escola;

» Não ouve sempre que falam com ela;

» Tem dificuldade na manutenção de níveis contínuos de concentração e de persistência nas tarefas;

» Apresenta ansiedade, problemas de comunicação, de relacionamento e comportamentos inadequados;

» Distrai-se frequentemente;

» É desorganizada e esquece-se facilmente das coisas;

» Tem dificuldade em concluir tarefas;

» Demonstra ter baixa autoestima e autoconfiança.

As crianças que apresentam estes sintomas são usualmente diagnosticadas como tendo TDAH (Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade), sendo inclusive medicadas em função de uma eventual disfunção cerebral caracterizada pela falta de dopamina na região do córtex pré-frontal, que afeta o normal desenvolvimento das funções executivas do cérebro.

Mas esse diagnóstico nem sempre será correto. Antes de se pensar em qualquer alternativa farmacológica, que não deixa de ser um tratamento mais invasivo, é importante estar atento às suas causas.  

Causas da falta de concentração

É fundamental fazer uma análise prévia às causas que podem estar a contribuir para que a criança tenha maiores dificuldades de concentração. Ao trabalhar sobre a sua origem pode ser possível reverter, em muitos dos casos, esse estado de défice de atenção.

Assim, algumas das causas poderão ser:

Causas emocionais: situações com elevada carga emocional tendem a desgastar a criança, impedindo-a de ter força e capacidade para manter a  concentração.

Descanso e sono deficiente: quando não damos ao nosso cérebro o tempo de descanso que necessita, seja por falta de tempo ou por motivos de stress, ele não funciona bem. Os problemas de concentração são um dos efeitos mais óbvios que resultam da falta de sono e descanso.

Fome e má alimentação: a fome é uma sensação muito desconfortável que o corpo ativa para avisar que faltam os nutrientes e energia. Essa sensação de fome também retém a capacidade de concentração. Por outro lado, uma má alimentação, com excesso de alimentos processados, resulta na ausência de nutrientes essenciais ao correto funcionamento do cérebro.

Há alimentos (mais açucarados) que estimulam a agitação na criança, estado este que é inimigo da concentração. Sendo alimentos de absorção rápida, fazem com que a sensação de fome regresse mais cedo. Deste modo, é fundamental escolher alimentos que para além de nutrir o cérebro, também prolongam o período de saciedade.

Preocupações e ansiedade: a preocupação absorve os pensamentos e retira o foco. Mesmo sendo situações momentâneas, crianças ansiosas tendem a preocupar-se excessivamente, reduzindo assim a sua capacidade de concentração.

Dor física: a concentração diminui na presença de dor física contínua, seja devido a lesão ou dor crónica.

Medicação: alguns medicamentos podem causar a diminuição da capacidade de concentração.

Ambiente de trabalho/estudo: havendo muitas distrações, tais como ruído, pessoas a falar ou demasiados objetos ao redor, é provável que as crianças fiquem mais distraídas.

Capacidade de concentração:  a concentração é como um músculo e como qualquer outro músculo, também pode e deve ser treinada.

Como melhorar os problemas de concentração?

01. Valorizar comportamentos positivos

É importante que os pais demonstrem valorizar tanto comportamentos positivos, como os negativos. Não repreender a criança e falar-lhe com tranquilidade é essencial para que mantenha a calma e seja capaz de discernir o que é certo ou errado. Reforços positivos têm um impacto direto no desenvolvimento de uma boa autoestima e autoconfiança, características que são determinantes para o aumento da sua capacidade executiva.

02. Dedicar mais tempo à(s) tarefa(s)

Além de ser fundamental fazer com que dedique mais tempo à tarefa, sobretudo às que lhes dão mais prazer para aumentar a confiança e o grau de realização pessoal, é importante também mostrar-lhe que é necessário aprender a priorizá-las.

Assim, deixar as tarefas mais complicadas de lado quando estão cansadas para as resolver mais eficientemente quando estiverem mais concentradas, ou começarem pelas tarefas mais difíceis enquanto estão mais concentradas, deixando as mais fáceis para o fim por não serem tão exigentes, são algumas dicas úteis a observar. Em suma, organizar as tarefas por ordem de prioridades de importância e grau de complexidade, pode ajudá-las bastante.

03. Menos tempo em frente à televisão e eliminar elementos que causem distração

Estudos revelam que crianças que passam mais de duas horas a ver televisão manifestam dificuldades em se concentrarem nas atividades escolares. 

Devem ser eliminados ou minimizados todos os estímulos que possam distrair a criança. Manter em cima da mesa de estudo apenas o estritamente necessário, manter tablets ou telemóveis afastados e, se trabalhar com o computador, evitar abrir páginas que não sejam úteis para a tarefa.

04. Contacto com a natureza

Passeios ao ar livre em áreas verdes ou brincadeiras no parque, entre outras atividades na natureza, têm um impacto muito positivo no bem-estar físico e psicológico da criança, pois na natureza há menos estímulos para se distraírem, contribuindo assim para tranquilizar a mente.

05. Meditação para melhorar o foco

Ensinar a prática da meditação é um hábito que deve fazer parte da rotina diária. Programas de Mindfulness ou Yoga oferecem ferramentas e inúmeros benefícios que contribuem para o aumento da atenção e para o crescimento harmonioso das crianças.

Estudos têm demonstrado que a meditação melhora a capacidade de atenção e reduz os sintomas de stress, ansiedade e depressão.

06. Jogos didáticos e estimulantes

Realizar jogos que estimulem a criatividade e o raciocínio, bem como a sua capacidade de concentração, são ótimos exercícios para trabalhar o “músculo da atenção”. 

07. Programar intervalos

No geral, a capacidade de concentração do ser humano tem uma duração muito limitada. Como tal, é contraproducente forçar uma criança a longos períodos que exigem concentração. Durante os estudos, por exemplo, agendar pausas de 10 minutos a cada hora ou hora e meia irá ajudar a criança a voltar ao estudo com as energias renovadas.

08. Cuidar da saúde

Para melhorar o desempenho cognitivo é essencial assegurar o seu bem-estar físico e psicológico. A criança deve ter uma alimentação saudável e equilibrada, fazer exercício físico, descansar o suficiente – entre 9 e 12 horas de sono por dia (para crianças dos 6 aos 12 anos) – e ter tempo para brincar, de modo a reduzir os níveis de stress e melhorar a concentração.

Bons hábitos, quando adotados com regularidade, contribuem para uma boa saúde mental, emocional e física. É de suma importância encontrar o equilíbrio numa sociedade cada vez mais materialista e competitiva.

Programa Mindfulness